Uma Sereia Chamada Mamom

Um supermercado na periferia. Um assalto. Carro forte, seguranças, ladrões. Tiros. Três feridos. Dois mortos. Um se chamava Francisco, a outra era Maria. Uma era cliente, o outro segurança. Maria encontrou a morte quando estava no caixa pagando suas compras, não deu tempo de procurar um lugar para se proteger. A funcionária do caixa que a atendia também recebeu uma bala, na perna. Francisco entrou correndo no supermercado para se esconder da saraivada de tiros. Em suas mãos um precioso malote com dinheiro. Dinheiro que custou a sua vida. Não conseguiu ser mais rápido que a bala. Seu corpo tombou no chão. Gemidos e sangue, muito sangue. Sangue de Francisco. Sangue de Maria. Sangue da garota do caixa e de mais dois feridos. Pânico, tumulto, choro, gritos, desespero, morte. Os ladrões fogem. As portas do supermercado são cerradas. A ordem é colocar cada coisa em seu lugar: Os iogurtes na sessão de frios, os pacotes de feijão na sessão de cereais, os feridos para o hospital e os corpos vão para o IML.  


Serventes limpam a sujeira. Misturam sangue com sangue, sangue de mortos com o sangue dos ainda vivos. Lágrimas? Não dá tempo. Recebem salário para limpar, não para chorar mortos ou feridos. Suor e água, muita água. Sabão, detergente, esfregão, balde, vassoura, desinfetante. Tudo limpo. Os nervos voltaram ao lugar. Os funcionários também. Menos a garota que levou o tiro na perna, esta foi para o hospital, deve entrar de licença médica. As portas são levantadas, clientes já estão do lado de fora esperando. Não vale a pena ter prejuízo por causa de duas mortes.

A rotina é restabelecida. Para alguns demorará um pouco mais, mas todos retornarão às suas vidas. Menos Maria e Francisco. Estes não têm mais vida, agora são lembranças. Lembranças daquilo que eram e daquilo que poderiam ser. Dos sonhos e dos amores que tiveram. Das paixões, das decepções, das dores, dos erros, das alegrias, das vitórias, dos frutos que deixaram. Das saudades. Nada mais é. Tudo era. Um dia Francisco saiu para trabalhar e Maria saiu para fazer compras. Um dia de rotina para ambos. Assassinatos também são parte da rotina em nossa sociedade.

Chamavam-se Francisco e Maria, mas poderiam se chamar Eu ou Você. O dinheiro que custou suas vidas ficou intacto, os ladrões não conseguiram levá-lo. Agora está protegido pelo cofre de um banco, onde outros Franciscos estão lá para guardá-lo, outras Marias tentam usufruí-lo e outros assaltantes estão a cobiçá-lo.

Dinheiro. Francisco trabalhava na expectativa de recebê-lo no salário. Maria foi fazer compras depois de conquistá-lo duramente, só Deus sabe a que custo. Do dinheiro gasto por Maria e por todas as outras Marias, sai o salário de Francisco e de todos os outros Franciscos. O dinheiro alimenta sonhos e cobiça. Francisco morreu tentando defendê-lo. Maria morreu tentando fazer uso dele. Os assaltantes mataram tentando possuí-lo. Todos os personagens desta rotineira tragédia estavam, de uma maneira ou de outra, envolvidos com a coleção de papeizinhos coloridos que convencionamos chamar de dinheiro e que vale muito mais que uma vida. Vale muito mais do que muitas vidas. Para alguns vale mais do que todas as vidas.

Por dinheiro se mata e se morre. Às vezes por balas ou facas, mas, na maioria das vezes, com armas mais sutis: câncer, derrame, úlceras, tumores, stress, angustia, depressão, desamor, indiferença, descaso. De uma maneira ou de outra todos nós pagamos tributo a ele: No tempo dedicado a ganhá-lo que tira nosso tempo com o que realmente vale à pena; nos presentes que disfarçam as nossas ausências; na competição desenfreada em busca de um lugar ao sol que vem para poucos, muito poucos e que, não raro, quando chega não traz nem felicidade, nem harmonia, nem paz, nem calma, nem descanso. Só o desassossego de que um dia ele pode esgotar-se e, por isto, não podemos parar de pagar tributo.

E você, quantos dos seus sonhos estão relacionados ao dinheiro? Quanto você tem aberto mão de coisas verdadeiras correndo atrás dele? Tem valido à pena? Jamais alguém dirá que vale à pena abrir mão das coisas verdadeiras para ir atrás do dinheiro, mas infelizmente é isto que fazemos, sem perceber. Abrimos mão dos amores, das alegrias, da solidariedade, dos filhos, do casamento, da família, dos amigos.

Diziam os antigos que quando um navio ia ao mar era necessário redobrado cuidado com as sereias, pois o seu canto encantava os navegantes fazendo-os segui-las até naufragarem e serem devorados. Assim acontece conosco. Como navegadores encantados nos tornamos surdos aos valores mais profundos e seguimos na esperança de que algo melhor nos aguarda logo adiante, basta que não nos percamos do canto que nos leva, e, nesta ilusão, pensamos: “amanhã eu curto meus filhos”, “amanhã cuidarei melhor do meu casamento”, “amanhã vou me dedicar mais a Deus”, “amanhã terei mais tempo para mim”, “Amanhã...”. Só que este amanhã nunca chega e, quando acordamos do encantamento, vemos que a vida se esvaiu sem que sequer percebêssemos.

Não é uma questão de ganância ou de amor ao dinheiro, antes, é uma estrutura de poder que nos aliena e nos separa uns dos outros, criando em nós expectativas de que a felicidade está logo ali à esquina, bastando apenas que trabalhemos um pouco mais, ou que nos dediquemos mais aos negócios, ou que estudemos mais um pouquinho, ou que compremos uma casa nova, ou isto ou aquilo. Passamos a vida em busca deste Eldorado que ao final não está na esquina, mas bem mais perto, dentro de nós.

Dedique mais tempo ao que realmente importa. Ao final da caminhada não serão os títulos que obtivemos, os bens que compramos ou o dinheiro que juntamos que vão nos dizer se a vida valeu à pena e sim os amores que vivemos, os amigos que cultivamos e a família que construímos.

As coisas especiais e verdadeiras são simples.

Não Desista!

Por: Pr. Denilson Torres

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