O Vento Sopra à Noite

Cerca de três milhões de pessoas em fuga. Atrás deles uma das mais poderosas forças bélicas da antiguidade. Cavalos, carros de guerra, cavaleiros, guerreiros. De um lado uma multidão composta de escravos recém-libertos que sequer sabiam empunhar direito uma espada. Do outro, centenas de milhares de soldados exaustivamente treinados na arte de matar. Escudos, armaduras, arcos, flechas, lanças e espadas a postos. Crianças, mulheres, velhos e homens sem nenhum treinamento militar à mercê. Uma carnificina anunciada.


O povo desesperado já se arrependia do custo da tão curta liberdade, alguns expressavam sua revolta contra Moisés: “O que foi que lhe dissemos no Egito? Pedimos que nos deixasse em paz, trabalhando como escravos para os egípcios. Pois é melhor ser escravo dos egípcios do que morrer aqui no deserto!”.

Moisés falou com o povo. Garantiu o livramento. Prometeu que não precisariam lutar, pois o próprio Deus lutaria por eles. Mas, apesar da segurança que apresentava perante o povo, o seu coração estava ansioso. Moisés se dirigiu ao Senhor clamando por socorro. A resposta de Deus foi uma pergunta: “Porque clamas a mim?”. É como se Ele dissesse a Moisés: “Ei! Onde está a sua confiança, homem? Você já não me conhece o suficiente? Não testemunhou tudo o que fiz para livrar este povo? Não viu a minha mão forte agindo tantas vezes? Não conhece o quanto Eu sou capaz de fazer por aqueles a quem amo? Se sabe tudo isto, porque esta angústia. Porque se deixar levar pela ansiedade e dúvida? Simplesmente não se deixe levar pela circunstância, continue no caminho que eu lhe tenho conduzido, marche!”.

O Senhor começou a agir. O anjo de Deus que ia na frente dos israelitas foi para trás deles, o mesmo aconteceu com a coluna de fumaça que ficou entre os egípcios e os de Israel e passou a agir de maneira diferente do normal. A nuvem começou a brilhar no lado voltado para os fugitivos, iluminando-lhes o caminho, e tornou-se negra na face voltada para os perseguidores fazendo a noite mais escura. Quando Moisés estendeu a mão, um forte vento soprou durante toda noite abrindo o mar e o caminho da libertação, do livramento e da vitória.

Esta história é também uma alegoria das nossas batalhas espirituais. Muitas vezes nos encontramos na noite de nossas vidas e, não é raro, que em nossas caminhadas tenhamos muitos períodos de noites. A noite é aquele momento em que não discernimos bem o caminho nem os obstáculos. É onde temos pouca luz para nos conduzir e a escuridão muitas vezes nos atemoriza sobre o que pode estar nos aguardando à espreita. Na noite aumentam os índices de violência e de morte. Na noite a insegurança é maior e a expectativa de que algo ruim pode acontecer é muito mais concreta.

Era uma noite assim que o povo de Israel passava. De um lado o mar que parecia instransponível, do outro os egípcios se aproximando e, na escuridão, ouvia-se apenas o clangor das rodas dos carros de guerra esmagando as pedras, das espadas tocando os escudos e o alarido dos perseguidores que se aproximavam. Temiam pela sua vida, pela vida de suas mulheres, mães, filhos… Mas a Palavra de Deus nos ensina que o maligno não nos toca e isto se tornou espetacularmente real na vida deles. O anjo de Deus e a coluna de fumaça foram para trás do povo e durante toda a noite evitaram a aproximação dos guerreiros egípcios, o maligno jamais teve a possibilidade de tocar o povo de Deus.

Note que, antes, o anjo e a coluna estavam à frente para guiar, agora, estavam à retaguarda para proteger. É exatamente assim também com a sua vida. Um detalhe importante é que antes, quando não estavam sob risco iminente, era fácil avistar a nuvem que os guiava, mas quando tornou-se necessária uma ação mais decisiva na batalha, tornou-se mais difícil ver a nuvem que agora estava na retaguarda. É assim também em suas batalhas. Quando você está envolvido em momentos de tribulação, pode ser que ao levantar os seus olhos você não veja a presença de Deus, mas fique tranquilo, Ele está em sua retaguarda lhe protegendo para que jamais o inimigo tenha a oportunidade de lhe tocar!

Portanto, confie. O Deus que entregou a si mesmo por amor à sua vida, certamente já provou o quanto você é valioso para Ele.

Quando Moisés expressou a sua angústia o Senhor lhe ordenou que marchasse. Uma coisa eu tenho aprendido em minha caminhada e creio que você também deve ter experimentado isto é que todas as vezes em que ouso caminhar pela fé, mesmo quando as circunstâncias não apresentam possibilidade de mudança de cenário, eu experimento o poder e a presença de Deus de uma maneira muito mais palpável.

Quando eu deixo de desejar ver para depois crer e começo a crer na certeza de que Aquele que deu vistas aos cegos certamente me fará ver o seu agir, é que efetivamente cumpro em minha vida os propósitos Dele. Quando eu começo a marchar, a fazer a vontade de Deus pela fé, não uma fé passiva, mas uma fé que toma decisões e atitudes é que o mar começa a se abrir à minha frente.

Eu sofro de uma enfermidade chamada fibromialgia. Ela me causa dores todos os dias, o dia todo. Além das dores ela me causa também um profundo cansaço. Durmo cansado e acordo cansado, o que é terrível para minhas atividades como pastor na igreja do Senhor, no ministério na internet e no trabalho secular, pois, a exemplo de Paulo, eu também fabrico minhas “tendas”. Quando me prostro diante das minhas dores e cansaço, nada acontece, mesmo que eu ore insistentemente, mas quando tomo a decisão de “marchar” independente das circunstâncias das dores e do cansaço, vejo renovar as minhas forças e o agir de Deus me enche de energia e alegria para servi-Lo.

Portanto, obedeça. Não se deixe levar pelo espírito de desânimo e derrota. Não fique prostrado, nem permita que as circunstâncias da noite lhe tirem a visão de quem é você e a quem você pertence. Continue olhando fixamente, firmemente, para o autor e consumador de sua fé e marche em direção a Ele.

Naquela noite, enquanto o povo marchava em direção ao mar, ainda não se podia distinguir nada. A verdade é que ou aconteceria um milagre ou fatalmente estariam todos encurralados e condenados a morrer pela espada ou pelo mar. Os que tivessem mais sorte voltariam como escravos para o Egito. Mas apesar do mar cerrado adiante o povo continuava a marchar, sem saber ao certo o que iria acontecer a não ser a vaga promessa de Moisés de que o Senhor faria com que nunca mais voltassem a ver os seus perseguidores.

Em nossos caminhos muitas vezes a nossa esperança é um fio e não temos a mínima ideia de como o Senhor fará para que superemos os obstáculos. Ele pode abrir o mar, mas pode também nos fazer andar por sobre as águas. Ou seja, Ele pode mudar as circunstâncias, mas também pode nos capacitar a passar por elas. Só Ele sabe o que precisamos e a forma exata de agir. Mas seja de que forma for, o importante é que nós não percamos a confiança de que Ele irá agir. Não sei como Deus vai lhe fazer superar os levantes e afrontas que você tem enfrentado, mas de uma coisa você pode ter certeza, Ele vai fazer.

Portanto, creia. Quando você estiver passando pela noite em sua vida, e talvez, você a esteja atravessando agora, saiba que o vento está soprando. Talvez você não esteja vendo agora, mas se apurar seus ouvidos certamente ouvirá o ruído do agir de Deus.

É à noite que Deus age de uma forma especial. Foi em uma noite que Deus confirmou e tornou firme a sua promessa a Abraão; Foi depois de uma noite lutando com o anjo que Jacó tornou-se Israel; foi à noite que Samuel recebeu o seu chamado; foi durante a terrível noite que Deus fechou a boca dos leões e deu livramento a Daniel e foi em uma gloriosa noite, ao terceiro dia, que o nosso Senhor ressuscitou e venceu a morte. A noite é período de dificuldades e lutas, mas confie, obedeça e creia, o vento do Espírito sopra à noite.

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