Paz e bem,
O cânon do Novo Testamento, a definição de quais escritos seriam considerados pela igreja como inspirados por Deus, foi instituído entre os anos de 363 e 393 d.C. nos concílios de Laodicéia e Hipona. Durante cerca de trezentos e cinqüenta anos o cristianismo sobreviveu sem uma Bíblia como a conhecemos hoje e a história é testemunha de que este foi o período em que o cristianismo esteve mais perto daquilo que é a verdadeira proposta cristã. Foi durante este período que os cristãos primitivos sofreram perseguições atrozes, foram entregues e devorados por feras, foram queimados vivos, encarcerados, decapitados, esfacelados, desmembrados, mas mantiveram firme sua fé.
Durante estes quatrocentos anos de história, mantivemos acesa a força da fé e o amor de Cristo, pois, apesar de toda a perseguição, a graça de Deus se revelava com mais força e muitos eram alcançados pelo testemunho dos mártires e a vida em santidade e amor dos cristãos. Eram os cristãos que atendiam os famintos e doentes, eram eles que a despeito de sua própria segurança corriam riscos cuidando das vítimas de pestes e catástrofes. Eram eles que mesmo com toda perseguição, injúria e injustiça, ousavam pregar uma mensagem de paz, jamais usando de violência, nem mesmo por amor às suas próprias vidas.
Naquela época, os escritos que vieram a se constituir o Novo Testamento já eram considerados como inspirados. As cartas de Paulo, João e Pedro, os evangelhos, o livro de atos e Hebreus, eram adotados na maioria das igrejas. Estes escritos eram examinados, discutidos e reverenciados pela comunidade, mas não eram impostos como se fossem leis. Somente quando o cristianismo ganhou status de religião oficial, sob o domínio de Constantino, estipulou-se o cânon de livros sagrados, já no final do quarto século.
Uma vez institucionalizada, a Bíblia passou a ser aquilo que nunca foi e nem disse que era: Virou o novo livro da lei – a “lei dos crentes”. Com isso a Bíblia deixou de ser uma referência para a fé, como deveria ser, e passou a ser a própria fonte da fé.
Este é o equívoco.
O centro da fé cristã não é um livro, mas o encontro transformador com a Graça de Deus em Cristo. Não somos como os mulçumanos, por exemplo, que têm nos versos do Corão a sua fonte de fé. A nossa fonte de fé reside no Cristo vivo e é Ele quem se revela ao homem. Não é fruto da busca do homem, mas da misericórdia de Deus que se comunica com ele de inúmeras maneiras, sendo a Bíblia o mais importante, mas não o único, canal de revelação de Deus.
Sem dúvida havia a necessidade de se estabelecer um cânon para as escrituras, pois grande era o número de escritos fraudulentos. A questão não foi o estabelecimento do cânon, mas o uso que se fez deste cânon estabelecido. O homem caído tem o terrível dom de perverter até as coisas mais puras. E assim se fez com as escrituras. Depois de tornar-se palavra oficial de Deus e da igreja, a Bíblia passou a ser manipulada de acordo com os interesses de cada grupo.
Deste modo, passou-se a ter a Bíblia como fonte fundamental da fé e recaiu-se no sutil pecado da idolatria da Bíblia, ou bibliolatria. De forma velada, este pecado faz com que muitos cristãos considerem que Jesus é Deus em forma carne e a Bíblia é Deus em forma de papel. E sendo Deus, ela não pode ser discutida, nem analisada, nem contextualizada. Está na Bíblia, virou lei. Assim pensam muitos cristãos, muitas vezes sem ter consciência de que tal comportamento.
Na Bíblia encontraram-se justificativas para o racismo, a discriminação da mulher, a exploração do homem pelo homem, a ganância, as chamas que incendiaram as fogueiras da inquisição, o controle da vida humana, a escravidão, as guerras e os genocídios.
Através da leitura deturpada da Bíblia, homens torceram a mensagem do evangelho a seu bel prazer, de acordo com seus próprios desejos ilícitos de dominar, manipular, matar...
Tal estado de coisas perverte a natureza do evangelho que é antes de tudo uma reflexão ética em relação ao mundo que nos cerca, tendo como filtro, norte e chave a graça, a misericórdia e o amor de Deus que se revelou na cruz do calvário. Sendo reflexão, a ética cristã não está centrada em um corpo de leis, mas no constante repensar do nosso agir a partir deste amor ao próximo que é conseqüência deste amor de Deus.
Mais do que leis, o que há são possibilidades de caminhada que nos vão conduzindo à pacificação do coração, ao entendimento da graça, à busca da misericórdia de Deus, e ao acolhimento do outro, por mais diferente que nos seja. Amar ao próximo e amar a Deus, são duas faces da mesma moeda e são o mapa que nos guia em todas as tomadas de decisão. Somos cristãos à medida que estes dois pilares de amor regem nossa caminhada.
Não foi para vivermos debaixo de um novo código de leis que Jesus nos resgatou. Não foi para novamente vivermos como os fariseus, coando mosquitos e engolindo camelos, como acontece hoje em nosso meio, que ele entregou sua vida na cruz do Calvário. A Bíblia deve ser fonte de reflexão, nunca fonte de lei.
Ela é e sempre será útil para nos ensinar a verdade, condenar o erro, corrigir as faltas e educar na justiça, mas tudo isto de nada vale se não for através do amor de Cristo, amor que só é verdadeiro quando eu amo o meu próximo e me coloco no lugar dele, pois tudo aquilo que desejo que façam a mim, devo fazer da mesma forma ao meu próximo. Assim, se não desejo ser discriminado, não devo discriminar, se não desejo ser perseguido, não devo perseguir, se não desejo ser tratado sem misericórdia, não devo negar misericórdia.
A Bíblia é Palavra de Deus para nós, mas não façamos dela aquilo que ela não é. Não sejamos como os judeus que necessitam das leis da Torah, nem como os muçulmanos que dependem dos mandamentos do Corão.
Somos diferentes de todas as outras religiões porque somos cristãos e não estamos presos a nenhum livro da lei. Para nós, a Palavra de Deus se fez carne e habita em nós através do seu Santo Espírito.
A Palavra de Deus habita em você.
De um apaixonado pela Palavra de Deus revelada na Bíblia,
Pr. Denilson Torres
Ministério Fruto do Espírito
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